Multidões queer. Notas para uma política dos anormais – Beatriz Preciado

Este artigo trata da formação dos movimentos e das teorias queer, da relação que ambos mantêm com os feminismos e da utilização política que eles fazem de Foucault e de Deleuze. Explora também as vantagens teóricas e políticas do conceito de “multidões” frente ao de “diferença sexual” para a teoria e o movimento queer.  Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, os movimentos queer na Europa se inspiram nas culturas anarquistas e no surgimento da cultura transgênero para combater o “Império Sexual”, especialmente por meio de uma des-ontologização das políticas de identidade. Não existe mais uma base natural (“mulher”, “gay”, etc) capaz de legitimar a ação política. O importante não é “a diferença sexual” ou “a diferença dos(as) homossexuais”,  mas as multidões queer. Uma multidão de corpos: corpos trangêneros, homens sem pênis, sapatões lobo [gouine garou], ciborgues, mulheres macho [femmes butch], bichas lésbicas… A “multidão sexual” surge assim como um possível sujeito da política queer.

Em memória de Monique Wittig

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Quem defende a criança queer? – Beatriz Preciado

Os católicos, os judeus e muçulmanos integralistas, os copeístas* desinibidos, os psicanalistas edipianos, os socialistas naturalistas à la Jospin, os esquerdistas heteronormativos e o rebanho crescente dos modernos reacionários se juntaram neste domingo para fazer do direito das crianças a ter pai e mãe o argumento central que justifica a limitação dos direitos dos homossexuais. Foi o dia deles de sair, um gigantesco “sair do armário” dos heterócratas. Eles defendem uma ideologia naturalista e religiosa que conhecemos muito bem. A sua hegemonia heterosexual sempre esteve baseada no direito de oprimir as minorias sexuais e de gênero. Eles têm o hábito de levantar o facão. Mas o que é problemático é que forçam as crianças a carregar esse facão patriarcal.

A criança que Frigide Barjot diz que protege não existe. Os defensores da infância e da família apelam à família política que eles mesmos constroem, e a uma criança que se considera de antemão heterossexual e submetida à norma de gênero. Uma criança que privam de qualquer forma de resistência, de qualquer possibilidade de usar seu corpo livre e coletivamente, usar seus órgãos e seus fluidos sexuais. Essa infância que eles afirmam proteger exige o terror, a opressão e a morte.

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